domingo, 3 de janeiro de 2010

Estabilidade

Anúncio em jornal, edital publicado, taxa de inscrição de vinte reais. Quatro vagas, que se dane, nunca tive medo de concorrência. Quase dois meses estudando. Trabalhos de faculdade ficando aos poucos em segundo plano, para que se priorize Português, Matemática, Informática e regimento interno. Prova, bom desempenho, sexto lugar. Uma pequena espera e lá está: nomeado. Exame médico, entrevista, papelada e, finalmente, meu primeiro emprego, já num concurso público.

Qual o valor da estabilidade? E de que estabilidade está se falando? Pra manter a estabilidade de um emprego, vale a pena abrir mão completamente de sua estabilidade emocional?

Não creio que exista algum brasileiro que acredite plenamente na lisura de um serviço público, por mais ufanista que seja – e isso eu sou. Ainda mais na esfera municipal, que é onde se concentra a maior sujeira. Mas é inevitável que um homem de princípios tenha, lá no fundo, uma esperança verdinha de que ele mesmo seja capaz de mudar aos poucos o que há de ruim em volta.

Nos primeiros meses tudo era maravilhoso – mas não era impressão errada de novato, já me disseram que entrei numa época muito boa. Diretores concursados, competentes, merecedores de seus cargos. Chefes que realmente primavam pelo trabalho.

O problema é que era ano de eleição. Em ano de eleição, todo cargo de confiança tem seu preço. Melhor dizendo, toda PESSOA em cargo de confiança tem seu preço. Alguns deles são até bem baratinhos, aliás. Numa virada de ano, tudo mudou. Um presidente concursado que já estava na empresa há mais de 15 anos deu lugar a um João-ninguém que é chamado de “doutor” por pura babação de ovo e só chegou onde está por ser amigo próximo do governador. Isso vai se repetindo nas diretorias, assessorias, gerências. Alguns dão até nojo de apertar a mão, tamanho o sebo e a falsidade. Nessa dança das cadeiras não ganha o mais rápido. Ganha o mais apadrinhado.

Toda essa sujeira se espalha pela empresa, de cima pra baixo. Logo quem está ao seu redor já está vendido. Surgem cargos de confiança onde não existiam e o cabide vai crescendo.

Carteiradas. Meu Deus, as carteiradas. Tirar vantagem da posição já é desprezível por si só, no geral. Imagine fazer isso dentro da própria empresa! Com menos de um ano de empresa eu já tinha batido de frente com pessoas assim. Não consigo ser tão passivo.

Bom, todos esses pensamentos soltos são só um pequeno desabafo. Em 539 dias, vivi muita coisa: por um lado meu esforço jamais foi reconhecido e cheguei a sentir nojo de dividir o ambiente de trabalho com algumas pessoas que falavam de mim pelas costas e até roubavam meus pertences. Mas por outro lado fiz bons amigos, aprendi muito, ganhei dinheiro e cresci como pessoa. Enfim, só tenho 22 anos, não posso me contentar com estabilidade de emprego. Não às custas de princípios e consciência limpa.

Um comentário:

  1. Sei como funciona o serviço público, embora eu tenha feito parte de uma instituição por pouco tempo, como estagiária.

    Nesses lugares, ninguém está preocupado em mudar o país, não! Tá todo mundo querendo se comer (no "mau" sentido da coisa rá!).

    Mas, infelizmente, estamos sujeitos a trabalhar com pessoas assim em qualquer lugar, seja em empresas públicas ou privadas.

    Fez bem em se afastar dessas pessoas. O triste é que iguais a elas, existem muitas por aí.

    Muita sorte, muitas felicidades e muitas pessoas boas ao seu redor! Vc merece!

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