sábado, 23 de janeiro de 2010

Marinho


Quantos anos você tem, caro leitor? Já escolheu seu time de futebol? Independente do que você responder, a verdade é que não escolheu. Não é assim que funciona.

Já ouviu aquele ditado que diz que a felicidade é como uma borboleta – basta parar de se preocupar com ela e ela pousará calmamente no seu ombro? Com um time de futebol é assim também. Você não escolhe, ele vem até você.

Todo mundo que me conhece sabe que o time que me escolheu – e agradeço sempre por isso – foi o América Futebol Clube. Já faz 23 anos que carrego, tatuado no coração, o emblema do clube mais mineiro de Belo Horizonte. Pudera. Com meu espírito bairrista, regionalista, ufanista e patriótico, qualquer outro time de BH que me escolhesse estaria sendo por demais incoerente.

Mas não é da MINHA paixão pelo América que venho escrever. É meu dever, como torcedor do Coelho, divulgar aqui as seguintes linhas, escritas por um ilustre americano, o qual tenho a imensa honra de poder chamar de amigo. Mário Monteiro é um verdadeiro exemplo de torcedor que aceita, de braços e coração abertos, o time de futebol que o escolhera no dia de seu nascimento. Defensor irredutível das cores do nosso exército. Marinho, meu caro, muito obrigado por ser americano.

Segue o maravilhoso texto dele, a respeito da solenidade ocorrida na última sexta-feira, marcando o início das obras de reforma do nosso segundo lar, o Estádio Independência.


“A torcida desceu e os jogadores subiram

Começo pelo fim. Tem coisas que só acontecem com o América.

O dia 22/01/2010 foi um marco na vida do clube. Formalidade a tona, protocolos, discursos, assinaturas, toda a cúpula governamental e desportista do Estado no hall do Independência para a o início das obras do único estádio particular de um clube profissional de futebol em BH.

Obras que colocarão o América na dianteira novamente, na consolidação patrimonial e na afirmação do clube com a sua galeria repleta de pioneirismos.

Pois bem, mas não venho aqui falar somente do discurso do governador Aécio Neves, neto de americano, que na qual fez questão em dizer e que também o América conseguia fazer não somente proezas esportivas, mas políticas também, pois como em cada importante cargo nos diversos setores da sociedade possui um torcedor estrategicamente do América, esse tradicional clube conseguira, numa posição clara de convergência, unir petistas e tucanos no mesmo palanque, além do modelo de gestão americano, o fato de vários presidentes que denotam o diálogo e a união em prol do América, serem uma clara e evidente inspiração para o chefe do executivo mineiro e de toda a política das alterosas.

Venho falar de uma cena em que perdi as forças no momento que vi.

Com a solenidade terminada, batalhões de fotógrafos e jornalistas à postos para colher matérias com as personalidades, uma cena surgiu, aconteceu naturalmente e nunca mais sairá da minha memória:

Torcedores apaixonados americanos desceram ao gramado do independência para se despedirem do “velho” gigante do horto, que testemunhou de jogo do copa do mundo, ou melhor, a maior zebra de todos os tempos, na vitória dos EUA sobre a Inglaterra em 1950, mais as inúmeras batalhas do América, os títulos, as lágrimas das vitórias, das lutas que se estendem do Milan da Itália ao Corinthians, dos clássicos que também foram realizados nesse importante palco americano.

No momento em que os torcedores americanos desceram para o gramado, uma imagem surgiu: o nosso capitão Wellington Paulo encostou na arquibancada e só ficou admirando com a voz embargada. Afinal, foram inúmeras batalhas travadas e capitaneadas pelo nosso zagueiro americano. Ele olhava, e os americanos iam descendo e falando obrigado capitão! Estava visivelmente emocionado. E ao lado direito, vários ex-atletas, da velha guarda americana, sentaram na arquibancada, nas cadeiras verdes para ver a cena, de Ari, o ponteiro dos anos 60, ao amarelinho, todos estáticos, olhando torcida no círculo central cantando o hino do América aos brados pulmões. Todos se emocionaram. Vamos falar para os nosso filhos e netos da cena. A diretoria apareceu num cantinho e ficou totalmente estática e observando a demonstração mais singela do significado da palavra AMOR.

Nunca houve fenômeno parecido no futebol mundial:

O dia em que a torcida desceu para o gramado e os jogadores subiram para as arquibancadas, para ao lado da diretoria, aplaudirem, todos, o nosso majestoso estádio.

Realmente, tem coisas, que só acontecem com o América.

Na véspera do nosso quase centenário clássico, América, eu te amo.

Texto dedicado ao amigo Paulo Borges, pelo fato de ser o aniversariante do dia, além das palavras ditas por esse grande americano no círculo central: "Em 40 anos de América, nunca vi o futuro tão próximo".

Vamos pra cima da cachorrada, com tudo.”

(Marinho Monteiro)

Obrigado.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Estabilidade

Anúncio em jornal, edital publicado, taxa de inscrição de vinte reais. Quatro vagas, que se dane, nunca tive medo de concorrência. Quase dois meses estudando. Trabalhos de faculdade ficando aos poucos em segundo plano, para que se priorize Português, Matemática, Informática e regimento interno. Prova, bom desempenho, sexto lugar. Uma pequena espera e lá está: nomeado. Exame médico, entrevista, papelada e, finalmente, meu primeiro emprego, já num concurso público.

Qual o valor da estabilidade? E de que estabilidade está se falando? Pra manter a estabilidade de um emprego, vale a pena abrir mão completamente de sua estabilidade emocional?

Não creio que exista algum brasileiro que acredite plenamente na lisura de um serviço público, por mais ufanista que seja – e isso eu sou. Ainda mais na esfera municipal, que é onde se concentra a maior sujeira. Mas é inevitável que um homem de princípios tenha, lá no fundo, uma esperança verdinha de que ele mesmo seja capaz de mudar aos poucos o que há de ruim em volta.

Nos primeiros meses tudo era maravilhoso – mas não era impressão errada de novato, já me disseram que entrei numa época muito boa. Diretores concursados, competentes, merecedores de seus cargos. Chefes que realmente primavam pelo trabalho.

O problema é que era ano de eleição. Em ano de eleição, todo cargo de confiança tem seu preço. Melhor dizendo, toda PESSOA em cargo de confiança tem seu preço. Alguns deles são até bem baratinhos, aliás. Numa virada de ano, tudo mudou. Um presidente concursado que já estava na empresa há mais de 15 anos deu lugar a um João-ninguém que é chamado de “doutor” por pura babação de ovo e só chegou onde está por ser amigo próximo do governador. Isso vai se repetindo nas diretorias, assessorias, gerências. Alguns dão até nojo de apertar a mão, tamanho o sebo e a falsidade. Nessa dança das cadeiras não ganha o mais rápido. Ganha o mais apadrinhado.

Toda essa sujeira se espalha pela empresa, de cima pra baixo. Logo quem está ao seu redor já está vendido. Surgem cargos de confiança onde não existiam e o cabide vai crescendo.

Carteiradas. Meu Deus, as carteiradas. Tirar vantagem da posição já é desprezível por si só, no geral. Imagine fazer isso dentro da própria empresa! Com menos de um ano de empresa eu já tinha batido de frente com pessoas assim. Não consigo ser tão passivo.

Bom, todos esses pensamentos soltos são só um pequeno desabafo. Em 539 dias, vivi muita coisa: por um lado meu esforço jamais foi reconhecido e cheguei a sentir nojo de dividir o ambiente de trabalho com algumas pessoas que falavam de mim pelas costas e até roubavam meus pertences. Mas por outro lado fiz bons amigos, aprendi muito, ganhei dinheiro e cresci como pessoa. Enfim, só tenho 22 anos, não posso me contentar com estabilidade de emprego. Não às custas de princípios e consciência limpa.