Tem uma pilha de documentos me esperando amanhã no trabalho – aliás, esses documentos são os entes mais pontuais da face da Terra, estão sempre lá de 8 às 18, parecem aquele colega pentelho. Outra semelhança é minha vontade louca de ver ambos pelas costas – e uma defesa de monografia batendo à porta, voando junto com o tempo. Também tem um concurso chegando aí. E eu tô aqui, às 23 horas em ponto de uma quarta-feira, olhando pra janela, vendo o tedioso trânsito do Pompéia e uma chuva bem fina caindo.
Já faz anos que ouço falar que eu sou calmo. Mas nem sempre é como um elogio que querem dizer isso. Já disseram que minha calma irrita os outros, que eu não posso ser tão tranquilo assim. Quando eu era mais novo eu era tremendamente tímido e recolhido. Isso mudou em quase todos os aspectos, mas ainda não consigo me desesperar com as coisas.
O que eu já reparei é que o desespero é a reação-padrão pra várias situações do dia-a-dia. Mais do que padrão, é a reação desejada. Já prestaram atenção no semblante de uma pessoa que vem lhe dar uma má notícia? Aquela expectativa pela sua reação, aquele coito interrompido que só vai atingir o ápice quando você fizer uma cara de espanto, de choro ou de indignação?
Em atividades de escola em grupo isso era bem comum comigo.
- Marcelo, tiramos 3 em 10 no trabalho de Biologia.
Dizia alguém, empunhando aquele pré-sorriso que espera minha raiva chamá-lo pra dançar.
- Tá.
Pronto. Fiz a pessoa broxar. Provavelmente garanti a ela uma “cara de tacho” por alguns minutos.
Não é proposital, juro. Assim como eu sei que nenhuma dessas pessoas deseja o mal de alguém ou se diverte com o estresse do próximo. Só que esse estresse explícito é algo que nunca fez parte de mim, e eu realmente não sei se quero que faça. Quintana me ensinou a viver como quem está gazeando aula, e assim tento seguir.
Às vezes confundem essa minha “calma” com irresponsabilidade ou descaso (conheço bem minhas obrigações e estou em dia, até adiantado, com todas elas) e até com ausência de sentimentos. Por muitas vezes fui taxado de frio, o que não é verdade. Quem me conhece de perto sabe disso. Mas a vida não é curta demais pra ficar dando show de desespero a cada problema que aparecer?
Parou de chover. Esse cheiro que fica no ar após a chuva é bom demais, né?
Eu não gosto da antena em flor...
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